Setor elétrico continua no vermelho


Investidores privados calculam rentabilidade das empresas elétrica e apontam perspectivas do setor em função da necessidade de investimentos e do nível de desempenho econômico.

A rentabilidade econômica das empresas privadas do Setor Elétrico Brasileiro continua negativa, apesar da tendência de melhora iniciada em 2003. O Economic Value Added - EVA (em português, Valor Econômico Adicionado) de 2006 foi de R$ 2 bilhões negativos. E o EVA acumulado de 1998 a 2006 indica uma perda econômica total de R$ 62 bilhões.

Esta é, em síntese, a conclusão da análise realizada pelo Instituto Acende Brasil, em parceria com a consultoria Stern Stewart  & Co, sobre o real nível rentabilidade econômica do negócio de energia elétrica no Brasil desde 1998.



A Stern Stewart utiliza o conceito Economic Value Added - EVA (em português, Valor Econômico Adicionado) pelo fato de o setor elétrico ser intensivo em capital e a metodologia ser mais completa que as da contabilidade tradicional, à medida que leva em conta o custo de oportunidade do capital empregado.

Como base para o estudo, a consultoria trabalhou com dados das 35 empresas, membros do Instituto Acende Brasil, que representam 28% da capacidade de geração, 8% da receita de transmissão e 66% da energia vendida pelas distribuidoras.

De acordo com os analistas da Stern Stewart, o resultado negativo, em termos de rentabilidade, para as empresas que compõem os 16 maiores grupos de empreendedores privados do setor elétrico no Brasil negativo de 1998 a 2006, vai muito além da soma simples do EVA acumulado destes nove anos, que indicam uma perda econômica total de R$ 62 bilhões. Isso porque, corrigido pela inflação (IPCA) este valor chega a R$ 81 bilhões e pelo CDI (Certificado de Depósito Interbancário) a R$ 129 bilhões.




Reversão e sustentabilidade

A interrupção da trajetória negativa, registrada a partir de 2003, deve continuar para que não ocorra redução da qualidade dos serviços prestados, sucateamento do parque instalado ou, ainda, desequilíbrio entre a oferta e a crescente demanda por energia nos próximos anos.

 "A reversão do quadro de rentabilidade negativa era condição mais que necessária para que as empresas elétricas tivessem perspectivas mínimas de sustentabilidade. Nenhum setor consegue manter-se, no longo prazo, com um quadro de perdas permanentes em relação ao capital investido", afirma Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil.


Entendendo o EVA

Desenvolvido pela Stern Stewart & Co nos anos 80, o conceito Economic Value Added (EVA) parte do princípio que só existe lucro quando todos os custos são cobertos, inclusive o custo de capital.

No caso do setor elétrico, intensivo em capital, esse custo é extremamente relevante. Ignorá-lo significa desprezar um dos componentes mais importantes da estrutura de custos. É por isso que outras medidas mais conhecidas, como Lucro Líquido e EBITDA ("Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization" ou "Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização"), não expressam adequadamente a real rentabilidade do setor.


Incentivo é o caminho

Para se manter a curva ascendente rumo a um EVA zero (mínimo esperado seja qual for a atividade econômica) na opinião do presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales, é necessário o retorno à  Regulação por Incentivos, metodologia que teoricamente rege o setor elétrico brasileiro e as revisões tarifárias.

"A Regulação por Incentivos induz  à eficiência e está sendo, pouco a pouco, abandonada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Na prática, vemos  o retorno silencioso ao modelo anterior, de Regulação por Custo, modelo que não premia a busca por custos eficientes, os investimentos prudentes e a redução de tarifas para o consumidor", indica o executivo.

O 2º ciclo de Revisão Tarifária Periódica, iniciado em 2007, na avaliação do presidente do Acende Brasil, tem sido marcado pelo adiamento da definição das regras e pela manutenção de metodologias provisórias, o que dá margem a decisões unilaterais por parte do órgão regulador.  "Um processo regulatório eficaz deve garantir um ambiente previsível e confiável, que promova um contínuo aumento da eficiência e uma tarifa que possa ser paga pela população. Por isso, é urgente um novo empenho do regulador para o aperfeiçoamento das metodologias de revisão tarifária. É preciso eliminar imperfeições e buscar soluções definitivas para os temas cujos critérios são ainda provisórios".

Na prática, quando os reajustes são exagerados ou fogem à lógica da eficiência, o que acontece é o adiamento de projetos e a reversão de investimentos em recursos materiais e humanos. Resumindo: as empresas,  por decisões impostas pelo regulador, são forçadas a fazer um corte exagerado em suas despesas como reação a um corte exagerado nas suas receitas.




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